Quem cuida de quem cuida? As vozes invisíveis da maternidade atípica na educação


Quando ensinar e cuidar se tornam jornadas que nunca terminam

No Brasil, a sobrecarga na educação básica já é uma realidade consolidada. Um levantamento do Instituto Ipec, realizado entre julho e dezembro de 2022 com mais de 6 mil professores da rede pública, aponta que cerca de 71% desses profissionais convivem com níveis elevados de estresse. A pressão por resultados, a falta de recursos e a desvalorização histórica da profissão fazem parte do cotidiano de quem está em sala de aula.

Mas, para além dos números, existem histórias que aprofundam ainda mais esse cenário — especialmente quando a vida profissional se entrelaça com demandas pessoais intensas, como a maternidade atípica.

A maternidade atípica é vivida por mães de crianças com deficiência ou transtornos do desenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), estima-se que 1 em cada 36 crianças no mundo esteja dentro do espectro autista — um dado que ajuda a dimensionar a quantidade de famílias impactadas por essa realidade. No Brasil, embora ainda existam lacunas estatísticas, o crescimento dos diagnósticos tem ampliado o debate sobre inclusão, acesso a terapias e suporte familiar.

É nesse contexto que surge o episódio do projeto Vozes Invisíveis, produzido pelos estudantes de jornalismo da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Elaine Fabíola e Luiz Emanuel. A proposta do podcast é dar visibilidade a profissões desvalorizadas e às histórias que, muitas vezes, permanecem à margem das discussões públicas.

O episódio apresenta a história de Flávia, professora da educação infantil e mãe solo de um menino de 7 anos diagnosticado com autismo. Sua rotina revela a sobreposição de papéis que marcam a vida de muitas mulheres brasileiras.



Durante o dia, Flávia está em sala de aula, desempenhando funções que vão além do ensino. Na educação infantil, o professor também é responsável por acolher, cuidar, mediar conflitos e contribuir diretamente para o desenvolvimento emocional e social das crianças. É um trabalho que exige preparo técnico, sensibilidade e constante atenção.

Ao fim do expediente, no entanto, sua jornada não termina.

Em casa, ela assume integralmente os cuidados com o filho, enfrentando uma rotina que envolve acompanhamento terapêutico, atenção contínua e adaptação às necessidades específicas do autismo. Como mãe solo, essa responsabilidade não é compartilhada, o que intensifica ainda mais a carga física e emocional.


A ausência de uma rede de apoio estruturada é uma realidade comum entre mães atípicas. Muitas precisam conciliar trabalho, cuidados domésticos e demandas médicas, frequentemente abrindo mão de descanso, lazer e até de oportunidades profissionais. Esse acúmulo de funções evidencia uma sobrecarga silenciosa, pouco discutida e ainda menos reconhecida socialmente.

Além disso, a desinformação sobre o autismo contribui para o isolamento dessas famílias. A falta de compreensão por parte da sociedade reforça estigmas e dificulta a inclusão, tanto no ambiente escolar quanto em outros espaços sociais.


A história de Flávia, apresentada no podcast, não é um caso isolado. Ela representa milhares de mulheres que sustentam, simultaneamente, o cuidado com suas famílias e o funcionamento de áreas essenciais, como a educação.

Diante disso, o episódio propõe uma reflexão necessária: quem cuida daqueles que cuidam?

Ao trazer à tona essa discussão, o projeto Vozes Invisíveis evidencia a urgência de políticas públicas mais eficazes, maior valorização profissional e o fortalecimento de redes de apoio para mães atípicas. Mais do que isso, reforça a importância de olhar para essas histórias com empatia e reconhecimento.

Por trás de cada sala de aula, existe uma vida que continua depois do sinal. Uma vida marcada por desafios, resistência e afeto — e que, apesar de tudo, segue sustentando outras tantas.

Dar visibilidade a essas vozes é um passo essencial para que elas deixem de ser invisíveis.

📌 Leia o roteiro completo ou ouça o episódio abaixo.


Por: Elaine Fabíola e Luiz Emanuel




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